Médico que pede muitos exames é melhor? Entenda por que quantidade nem sempre significa qualidade
Pedir muitos exames não é sinal de bom atendimento. Entenda por que uma consulta de qualidade começa pela escuta e pelo raciocínio clínico!
Sair de uma consulta com uma lista longa de exames costuma causar duas reações opostas, dependendo das percepções de cada um: satisfação ou desconfiança.
Quem sente satisfação tende a interpretar aquela lista como sinal de que o médico foi minucioso, que levou a sério. Quem desconfia começa a questionar se tudo aquilo era mesmo necessário.
As duas reações fazem sentido. Mas, afinal, será que um médico que pede muitos exames é melhor? Vamos descobrir a resposta para isso!
Perguntas e respostas rápidas
Mais exames significam diagnóstico mais seguro?
Não necessariamente. Exames sem indicação clínica clara aumentam o risco de resultados falso-positivos, que podem gerar ansiedade, investigações adicionais desnecessárias e até tratamentos que não eram indicados.
O que é medicina defensiva?
É a prática de solicitar exames em excesso não para benefício clínico do paciente, mas como proteção do médico contra possíveis questionamentos futuros. Contribui para o aumento do volume de exames sem melhora nos desfechos clínicos.
O que é “overdiagnosis”?
É o diagnóstico de uma condição que, apesar de detectável, jamais causaria sintomas ou ameaça à vida do paciente. Pode levar a tratamentos desnecessários, com riscos reais sem benefício correspondente.
Medicina baseada em evidências significa não pedir exames?
Não. Significa pedir os exames certos, para as pessoas certas, no momento certo, conforme o que a literatura científica de maior qualidade recomenda para cada situação clínica.
Resumo do artigo
Este artigo discute por que a quantidade de exames solicitados não é um indicador de qualidade no atendimento médico, o papel central da avaliação clínica no processo diagnóstico, os riscos do excesso de investigações e como a medicina baseada em evidências orienta uma prática mais segura e individualizada.
Por que associamos muitos exames a um atendimento melhor?
A lógica parece intuitiva: se o médico pediu mais, investigou mais, foi mais cuidadoso. E nós gostamos de respostas, certo? Por isso, essa percepção tem raízes compreensíveis.
E não é para menos, porque nós vivemos numa cultura que valoriza a tecnologia como sinônimo de progresso, e os avanços diagnósticos das últimas décadas reforçaram a ideia de que exames são a principal ferramenta da medicina moderna.
Some a isso o fato de que consultas curtas, sem muito espaço para conversa, deixam o paciente com a sensação de que o exame vai compensar o que a consulta não teve. Quando o médico ouve pouco, o laudo parece mais confiável do que a avaliação clínica.
O problema é que essa lógica inverte a ordem. Na verdade, os exames são complementares ao raciocínio clínico, não substitutos dele. E quando a lista cresce sem uma hipótese diagnóstica clara orientando a solicitação, o que aumenta não é a segurança, mas sim a confusão. E, muitas vezes, o gasto e a necessidade de fazer intervenções desnecessárias.
O que acontece na consulta antes de qualquer exame?
A construção de um diagnóstico começa muito antes do resultado do laboratório. Tudo isso começa na conversa. Confira o que está em jogo nessa etapa!
Anamnese
A história clínica bem conduzida já orienta fortemente o raciocínio diagnóstico, com as perguntas certas sobre:
- o início dos sintomas;
- quais são esses sinais;
- o padrão de evolução do que está acontecendo;
- os antecedentes pessoais e familiares;
- os medicamentos em uso;
- o contexto de vida do paciente, entre outros.
Por isso, a anamnese é responsável por uma parcela expressiva dos diagnósticos, muito antes de qualquer exame complementar.
Exame físico
Depois, um médico que examina o paciente, ausculta, palpa e observa está coletando informações que nenhum exame de imagem substitui integralmente.
A dependência excessiva de tecnologia corre o risco de enfraquecer o raciocínio clínico e as competências junto ao paciente, ao mesmo tempo em que contribui para a desumanização da prática médica.¹
Hipótese diagnóstica
Quando a anamnese e o exame físico são bem conduzidos, o médico chega em hipóteses diagnósticas que orientam quais exames fazem sentido pedir, para quê e em que sequência.
Ou seja: os exames servem para confirmar uma hipótese, esclarecer dúvidas, trazer respostas para lacunas e para conduzir os próximos passos, não para substituir os passos anteriores.
Ainda não entendeu? Vamos a um exemplo!
Imagine que você vai ao médico com uma dor de garganta. Isso pode significar muitas coisas, desde uma infecção bacteriana até uma gripe comum, com reação inflamatória na região.
Agora, imagine que, a partir dessa queixa, o médico não examine você e peça uma série de exames para descartar todas as possibilidades desse sintoma: hemograma, cultura da secreção, endoscopia, tomografia…
Com um bom exame físico e uma conversa cuidadosa, ele consegue identificar se há pontos de pus, se é ou não necessário entrar com antibiótico e qual conduta deve ser tomada. Depois de alguns dias, se necessário, ele pode solicitar exames mais específicos para o seu quadro. Mas, na maioria das vezes, esse tipo de problema é resolvido com a medicação adequada.
Ou seja: veja quanto você gastaria de dinheiro e tempo com a realização de todos esses exames! Sem contar que, em alguns casos, a espera pelos resultados pode gerar angústia, medo e ansiedade. Com uma boa hipótese, você já sai mais tranquilo da consulta.
Quando os exames realmente são necessários?
Mas, calma: os exames não são vilões. Pelo contrário! Eles têm um papel fundamental na medicina. Confirmam hipóteses, afastam diagnósticos, monitoram doenças crônicas, rastreiam condições em populações de risco. O ponto não é questionar a utilidade dos exames, mas a indicação de cada um deles.
E não é só isso! Alguns exames preventivos são extremamente importantes, como a mamografia, a colonoscopia e o PSA. Eles têm indicações baseadas em faixa etária, fatores de risco e intervalos definidos pelas diretrizes das sociedades médicas. Mas fazê-los fora das indicações recomendadas não protege o paciente. Pode até prejudicá-lo!
Quais são os riscos do excesso de exames?
O excesso de investigações diagnósticas não é apenas um desperdício de recursos. Tem consequências clínicas concretas. Veja as principais!
Falsos positivos e a cascata de investigações
Imagine receber um resultado alterado num exame que você fez sem nenhum sintoma. A preocupação é imediata. Vêm novos exames para investigar, alguns mais invasivos, e semanas depois a conclusão é que não havia nada de errado. O alívio chega, mas o caminho até ele custou tempo, dinheiro e muita ansiedade.²
Overdiagnosis
Às vezes, um exame detecta uma alteração que nunca causaria sintomas ou colocaria a vida do paciente em risco. O problema é que, uma vez no papel, o achado vira diagnóstico, e o diagnóstico vira tratamento. O nome disso é overdiagnosis, ou diagnósticos em excesso.
A pessoa passa por procedimentos com efeitos colaterais concretos para tratar algo que, na prática, não precisava ser tratado.² Casos assim estão bem documentados na literatura médica e têm consequências físicas e emocionais reais para quem passa por eles.³
Exposição à radiação e riscos de procedimentos invasivos
Tomografias, radiografias e cintilografias envolvem exposição à radiação ionizante. Biópsias, punções e endoscopias têm riscos inerentes ao procedimento.
Impacto emocional e financeiro
Receber um resultado alterado de um exame que não precisava ter sido feito gera ansiedade, consultas adicionais, afastamentos e custos que se acumulam. O dano não é só físico.
O que é medicina baseada em evidências na prática?
Medicina baseada em evidências é a integração do melhor conhecimento científico disponível com a experiência clínica do médico e os valores e preferências do paciente. Na prática, significa tomar decisões diagnósticas e terapêuticas com base no que a literatura de maior qualidade recomenda para aquela situação específica.
O overdiagnosis se tornou um dos problemas centrais da medicina contemporânea, impulsionado pelo aumento da sensibilidade dos exames de imagem e biomarcadores, pela medicina defensiva e pela percepção cultural de que mais investigação significa mais segurança.⁴
Qual é o compromisso do Centro Médico Berrini com uma assistência ética e individualizada?
No Centro Médico Berrini, a consulta começa pela escuta. Os especialistas que integram o corpo clínico são médicos comprometidos com uma prática baseada em evidências: pedem os exames que a situação clínica justifica, explicam o raciocínio por trás de cada solicitação e tratam cada paciente como um indivíduo, não como um protocolo.
Ter estrutura para realizar exames no próprio local é uma conveniência e tanto! Mas ela existe a serviço do diagnóstico, não ao contrário. O que orienta a investigação no CMB é o raciocínio clínico, não a disponibilidade do equipamento.
Ou seja, não: um médico que pede muitos exames não é necessariamente melhor. O melhor médico é aquele que tem clareza do raciocínio, qualidade na conversa e que toma decisões que fazem sentido para aquele paciente, naquele momento.
Agende uma consulta no Centro Médico Berrini e descubra como uma avaliação individualizada pode fazer toda a diferença no seu cuidado com a saúde!
Referências
¹ NCBI/PMC. Revisitando uma competência intemporal: o exame físico na era da medicina moldada pela tecnologia. PubMed Central, 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC12094291/
² BRODERSEN, J. et al. Overdiagnosis: what it is and what it isn't. BMJ Evidence-Based Medicine, v. 23, n. 1, p. 1-3, 2018. Disponível em: https://ebm.bmj.com/content/23/1/1
³ OLMOS, R. Sobrediagnóstico: prejudicando pacientes em nome da saúde. Interface — Comunicação, Saúde, Educação, v. 25, e210636, 2021. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/icse/2021.v25/e210636/
⁴ KÜHLEIN, T. et al. Overdiagnosis and too much medicine in a world of crises. BMJ, v. 382, p. 1865, ago. 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37573032/
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico clínico ou a orientação de um profissional de saúde habilitado.










